domingo, 20 de novembro de 2016

Ei, Você.


Tão, tão superior, que me olha de cima a baixo, que de tão temente a deus se transformou-se nele.  Sabe quem eu sou?
Sou aquela que vai para o bar, bebe como um pirata enlouquece até o sol raiar e no dia seguinte o faz novamente. Você nunca perguntou o porquê, mas mesmo assim te digo: o que sinto não cabe em mim e tudo o que preciso falar também não cabe aqui, porque cada dia que morro lembro a razão de eu permanecer viva e sem isso as coisas já não fazem muito sentido.
Bebo porque preciso morrer para só então reencarnar melhor, você não entenderia, afinal não passo de uma bêbada chata que continua a dançar quando a música de finda, de que adianta me ouvir, não é mesmo? É assim que teus olhos me veem.
Você me ignora. Todos os dias, o tempo todo e isso seria ok se eu conseguisse lhe ler. Não consigo. Você mente, oculta verdades como se estivesse sempre escondendo algo, mas o quê? Quem? Quem é você afinal?
Entristece-me saber que você, um homem tão culto, que aprecia conhecer lugares novos, acaba por não conhecê-los de fato, nunca se permite abalar por nada que julgue passional, mas qual é a beleza da vida se não vivê-la ao seu máximo?
Mas ainda assim é bom. Sempre disposto a ajudar quem de fato precisa. Bom, tão bom que o quis pra mim, mas eu já deveria saber que uma pessoa doente como eu não tem espaço em vidas como a sua. Eu não tenho nem o direito de me permitir ser parte sua se depois, como um pé de vento, vou bagunçar tudo e fugir. Mas por você eu ficaria. Seria capaz de me fazer brisa só pra ouvir sua risada desengonçada.

Seria você capaz de me salvar de mim, se nem eu mesma sou capaz?

domingo, 31 de julho de 2016

Madalena

Sutil e vil, mas de inocência única, Madalena acredita ser luz.
acredita...
Madalena, criança sem rumo, que chora por um capricho que se nega a ela, que a quer mas só para lhe tirar o sumo e depois desgostar, sumir no mundo.
Madalena carrega damian no ventre achando que reproduzirá deus. 
Madalena, não se pode abraçar uma rosa sem sangrar em seus espinhos. 
Fuja, Madalena. 
Eu fugi. 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Rei e o Bobo

Rei Narciso era conhecido por sua benevolência. Tinha assumido o trono cedo porque seu pai foi acometido de uma grave doença na qual não resistiu.
Cresceu como rei e homem diante dos olhos curiosos e com o auxílio dos conselheiros tonou-se um excelente líder. Foi-lhe arranjado um casamento com uma bela princesa, unindo reinos e selando a paz, visto que antes já haviam batalhado por território.
Ao repousar os olhos sobre ela pela primeira vez teve certeza da sorte que havia tido, não apenas seria uma jogada política, mas a mais bela figura que ele poderia ter ao seu lado. A paixão foi fulminante, apressando o casamento. Não queria mais ficar longe dos seus olhos.
Seu reino prosperava, lhe auxiliando a justa rainha sempre intercedendo por aqueles que a ela chegavam. Tudo parecia em ordem, mas algo incomodava o rei em seu íntimo: a ausência de herdeiros. Apesar de suas insistentes tentativas sua senhora parecia incapaz de trazer-lhe tal alegria e, com isso, a cada dia seu coração endurecia.
Seus súditos que tanto o amavam passaram a lhe temer, ao ponto de ouvir as trombetas que anunciavam a sua chegada e recolher-se em suas casas, com receio de qual seria a atitude descabida que suas mãos realizariam daquela vez. Costumava jogar na masmorra àqueles que ousavam não abaixar a cabeça ante a sua presença. Sua aparência, antes jovial, já não era a mesma, seucenho estava sempre franzido, revelando a amargura que trazia junto ao peito, os cabelos brancos lhe cobriam a cabeça. Enquanto sua esposa permanecia reluzente, não se deixando abalar por toda a loucura que tomara conta do seu rei, que também passou a beber excessivamente e cultivar em harém de meretrizes, entre elas, sua favorita, Madalena. E somente então a sua desgraça chegou à rainha.
Antes conhecida como justa passou a se esconder no castelo. Já não saia do seu quarto, entrando numa profunda depressão. Não suportando as constantes crueldades do seu marido, encontrou conforto nos braços da morte, sua antiga conhecida, a rainha da coroa de espinhos, que várias vezes tirou a vida de dentro do seu ventre, fazendo com que ela perdesse de forma cruel todas suas tão desejadas gravidezes. Foram três antes que desistisse da vida, de Narciso, de tudo.
Narciso encontrou o corpo de sua mulher morta, lívida, fria, com olhos vidrados. Sentiu tanta dor ao ponto de cair de joelhos. Como uma criança, deitou ao seu lado vertendo lágrimas nunca antes vistas e implorando que deus devolvesse seu amor, o que não ocorreu. O silêncio do castelo era quebrado pelos seus berros de horror, seus pedidos de desculpas que sua esposa nunca seria capaz de responder.
- ‘Me perdoe, eu te amo.’
O seu ódio tornou-se mais forte. Ódio de deus, que lhe tirou o pouco que lhe restava, ódio de sua falecida esposa que o abandonou e, acima de tudo, ódio de si, por no fundo saber que a desgraça que se abatia sobre seu castelo era merecida, ele mesmo a havia convidado para ficar e já não sabia como manda-la embora.
A bebida, antes já presente, passou a ser incessante e sua loucura crescia a cada dia. Seu harém antes tão belo, repleto das mais esplêndidas mulheres do reino transformou-se num lugar de orgias da mais absurda natureza. Incesto, necrofilia, zoofilia, estupros, mortes. Morte. Uma a uma elas foram embora, as poucas que sobreviveram à sua fúria. Madalena ficou. Ele se sentia bem, afinal era um sopro de ar para um rei, coitado, tão calejado.
Mas um dia aconteceu. Madalena o repreendia por estar a dois dias trancado no seu quarto esvaziando vários barris de vinho. Ele ria, debochado, dizia que era o rei e ela uma reles meretriz, mulher da vida, puta, imunda e ninguém a iria querer. Em um segundo de sobriedade proferiu as seguintes palavras:
- ‘Madalena, se olhe no espelho. A única mulher que amei jaz morta há anos por culpa minha. Você não a substituiu em nenhum momento, mas sempre foi uma ótima diversão’.
Enlouquecida, afastou-se correndo para o quarto onde guardava seus pertences e começou a destruí-lo, enquanto tentava acomodar suas roupas num baú. Chorava, se lamentava, acreditava ser amada mas bem sabia que não o era, apesar de acreditar piamente que o tempo seria capaz de fazer brotar, mal sabia ela que o tempo não era capaz de germinar um amor que não tinha sido plantado. Espelhos quebrados e lençóis rasgados adornavam o cômodo embebidos em raiva.
Ora, ela queria ir embora, mas não era da natureza de Narciso permite-se abandonar. Madalena ficaria, era seu brinquedo. Invadiu o quarto e passou a desfazer o que ela já havia feito, mas quando cansou de brincar a segurou pelos braços com suas fortes mãos e a estapeou. Madalena prostrou-se de joelhos, assustada pela atitude nunca antes tomada e partiu para cima do rei, na falha tentativa de arrancar sua coroa e lhe mostrar que sem ela ele não era ninguém, um grande nada. Mas perceba, ninguém seria capaz de  destronar Narciso, ele não permitiria. Era a maior certeza da sua vida, o poder que tinha nas mãos, os súditos, os lacaios, as mulheres, todos eram peça do seu jogo de xadrez e só deveriam se mover quando ele lhes tocasse.
Segurou Madalena, mas dessa vez pelo pescoço, viu seus olhos se encherem de sangue, a jogou sobre a imponente cama de carvalho, fazendo com que num estalo seu pescoço se quebrasse e a vida lhe deixasse o corpo.
Madalena estava morta. Narciso, envergonhado do monstro que havia se tornado, pensou em sua falecida esposa e a quis por perto. Ela sempre foi o seu alicerce, sem ela, ele era fera, rei de si, mas afinal, quem era si?
Ainda atordoado, vagou pelos cantos vazios e escuros do seu castelo, tentando se encontrar. Só foi capaz de fazê-lo ao chegar na masmorra, onde estava o espelho que havia sido da sua mãe, encoberto por veludo vermelho, onde se viu nu, sujo, tomado pelas trevas que lhe habitavam a alma. Já não era capaz de chorar, tampouco sentir. Quem é você, Narciso? O bobo


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Free as a bird

O peito é leve, não carrega fardos de palavras não ditas, ou de insistências não correspondidas.
O peito é leve de quem tem consciência limpa, de quem não mente, trai, ou se ausenta sem explicar.
O peito é leve de quem é luz sem necessidade de se expor ao ridículo por quem não vale.
A louca imaginária esta em casa. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

21.08.2012

Então venha,

Acenda o meu cigarro,
Me dê outra dose,
Faça eu me sentir viva.
Me abrace.
Teu calor me faz febril,
E eu gosto.
Gosto da tua textura na minha
Gosto do teu cheiro no meu.
Então deixa eu te despir,
Encontrar em ti o que falta em mim. 
Não me deixe cair,
Não deixe a vodka nos vencer.
Hoje não, amanhã talvez 
Quem precisa de sobriedade em tempos de dor?
Me deixe correr ao teu lado,
Não interessa pra onde, 
Apenas corra até o ar sumir dos pulmões.
Corra mais rápido. 
Talvez nossas asas voltem a bater
E nós possamos voar novamente.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Flores Mortas

A bateria e o baixo ensaiavam com o bater do meu coração. Respiro. Dentro de mim é silêncio. Me olham como se esperassem algo. Uma vibração, um grito um aplauso. Por que de mim? Um dia que começa errado, fica errado e em erro permanece até seu fim, não tenho ânimo, nem alma pra falar algo, para ser algo. Ao meu redor são notas bonitas, solos complexos e eu por dentro me desfaço e morro. Não consigo, não consigo. Em dias como esse a respiração pesa, como se fosse um fardo maior do que sou capaz de aturar. Fecho os olhos por um segundo e consigo visualizar cada palavra dita e lembro todos momentos, o dia em que foram escritas, o que eu sentia, o que sinto e então sento. É um fardo abominável de se carregar, espero que não esperem nada de mim, no fim não valho a pena. Nada em mim vale. Nem um milímetro da minha pele, nem mesmo as pontas duplas do cabelo que me adorna o rosto.
Não me queira, nem eu sou capaz de tal. Sou barulho e silencio, sou amor e ódio, os mais próximos devem saber. Mas hoje vos digo, algo em mim morre, não sei ao certo o que, penso em me deitar, fechar os olhos e dormir o máximo possível, mas o dia de amanhã, que já é hoje, me vem como um soco na cara, me destruindo pra lembrar que não posso cair, afinal com certeza alguém me espera sem me querer por perto, buscando apenas o que eu posso fazer para seu prazer.
E você? O que quer de mim? Meus olhos? Minha paciência? Meu tempo? Eu só tenho dor a oferecer. Se afaste.
Não me fites, senhor. Sou apenas uma Vagabunda de olhos baixos, não vês que não devo me aproximar? Sou suja e puta, sou morta tanto por dentro, quanto por fora, mantenha distância, senhor. A louca, eles dizem, nada de bom tem a lhe oferecer, são flores mortas que carrego em mim, abstenha-se e não torne-se uma delas.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poema para não voltar

Filha de ninguém,
Abrigada na noite,
Sem casa para voltar,
Sem ninguém para se permitir perder 
Sem abraços para descansar 
Mais só do que quando veio ao mundo.